quarta-feira, 9 de maio de 2007

Largo São Bento

Sempre que posso ando pelas ruas do centro velho de São Paulo. Muitas vezes por necessidades mercantis, outras por prazer, mas a maioria pelos dois motivos.

Aquilo é uma escola viva.

Muitos cheiros, sons e imagens.

Muita ação também não falta, com toques de humor negro e suspense. De drama nem se fala.

Naquele zoológico humano há gente de tudo quanto é tipo fazendo tudo quanto é coisa para sobreviver.

Os engravatados metidos a donos de tudo e de todos da Rua Boa Vista e adjacências estão sempre lá. Impecáveis com seus celulares de ultíssima geração e papo furado de pseudo-executivos (os executivos são piores).

Mas a fartura em exemplares desta fauna fica por conta dos indefectíveis camelôs, com suas cantorias, bugigangas, fino trato com o cliente e muito bom humor.

Até chegar o rapa.

Aí a festa é geral.

As bugigangas, que segundos antes repousavam confortavelmente num tecido qualquer sobre o belíssimo piso do Viaduto do Chá, agora estão descendo a ladeira rumo a 25 de março no lombo de seus possuidores.

É tudo muito rápido, dramático, tenso, nervoso... engraçado. Para quem está de fora.

Ou melhor, para quem faz parte daquilo como mero consumidor e observador.

Os próprios informais acham graça. Então, não me contranjo em rir - internamente, é claro.

São brasileiros típicos aqueles.

E isso é bom de ver.

As coisas como elas são.

Sem máscaras, photoshop ou encenações teatrais e ostentosas daqueles da Boa Vista.

Hoje, agora mesmo, essa fauna urbana não está funcionando. Pelo menos em sua normalidade.

Faz frio: 10°C.

O Papa está olhando para aquele piso, num púlpito do Mosteiro São Bento.

Sobre o piso são milhares se espremendo na garôa, ocupando cada centímetro daqueles ladrilhos para reverenciar seu ídolo.

Talvez os camelôs também estejam lá, vendendo alguma água sagrada.

Hoje não tem rapa.



Largo São Bento, hoje à tarde. Fonte: FSP.